Peixe

Leandro Soriano Marcolino

– E você, Teófilo, o que quer ser quando crescer?

– Eu quero ser um peixe.

A professora ficou estática. A sala, no mais completo silêncio. Até que finalmente ela esboçou um meio sorriso:

– Teófilo, meu querido, você não pode ser um peixe. Estamos falando de profissões, como bombeiro, policial, médico… Lembra do que discutimos, querido? Você tem que escolher alguma coisa assim, entendeu?

A professora não esperou Teófilo responder. Não podia correr o risco. Já passou para a próxima aluna.

– E você, Aninha, o que quer ser quando crescer?

– Eu quero ser médica, titia.

Sorriu, aliviada.

– Que legal, Aninha!.. Agora, turma, peguem os seus lápis de colorir, e cada um tem que desenhar o que vocês querem ser quando crescer. Quem quer ser médico, tem que desenhar um médico trabalhando. Quem quer ser bombeiro, tem que desenhar um bombeiro trabalhando. Entenderam? Caprichem bastante, porque nós vamos expor seus desenhos para a escola inteira! Entenderam? Alguém tem alguma pergunta?

Ninguém perguntou nada. As crianças, animadas, já pegavam os seus lápis e rabiscavam, coloriam, gritavam, mostravam seus desenhos uma para as outras. A professora andava pela sala e via surgindo policiais controlando o trânsito, garis limpando a rua, bombeiros salvando gatos, motoristas de taxi costurando o trânsito, detetives seguindo pistas, até mesmo mágicos e malabaristas. Elogiava os alunos, e sorria, satisfeita por ter sugerido essa ideia para a direção da escola, tinha certeza de que os pais iriam amar a exposição na semana das profissões.

Passou pela mesa de Teófilo. Gelou. Parou de sorrir. O garoto, completamente compenetrado, desenhava um lindo e detalhado peixe. Era um peixe dourado grande, grande e gordo, com olhos esbugalhados, as escamas eriçadas, as gueiras abertas e vermelhas. Um vermelho forte, vivo. Nadava em direção à um conjunto de algas, talvez para se esconder de algum predador. O desenho era tão real, tão detalhado, tão bem feito, incrível para um garoto daquela idade. Teria ficado muito orgulhosa, se não estivesse desesperada com aquela situação. Como é que iria expor aquilo para a escola inteira, durante a semana das profissões? O que iriam pensar dela?

– Teófilo, meu querido – tentou sorrir. – O que é que você pensa que está fazendo, meu amor?

– Uai, fêssora, cê pediu pra gente desenhar o que quer ser quando crescer. Eu quero ser um peixe.

E o diabo do menino ainda repetiu, com toda a clareza do mundo:

– Eu quero ser um peixe quando eu crescer, professora.

A cabeça dela trabalhava rapidamente. Será que daria para expor os desenhos de todos os alunos, menos o de Teófilo? Será que os pais de Teófilo aceitariam a situação? E se expusesse o desenho de Teófilo, o que os outros pais iriam pensar? Será que teria que dar um jeito de cancelar a exposição inteira?

– Teófilo, amor de minha vida, você não poderia desenhar outra coisa? Por que você não desenha um policial, um bombeiro, um motorista de fórmula um? Não seria legal um policial lutando contra os bandidos, salvando as mocinhas? Não é emocionante? Pode até ser um super-herói, um batman, até isso serve, meu amor.

– Não, fêssora, eu quero ser um peixe.

– Nossa, legal, acho que quero ser um peixe também.

– Não, Pedrinho, por favor, não. Continue desenhando o mágico, meu filho, por favor.

Desistiu. A situação estava ficando cada vez pior. Já estava imaginando uma série de peixes expostos pela escola, na semana das profissões. Era melhor deixar para lá, esconder o desenho de Teófilo e explicar para os pais do menino depois. Talvez fosse a melhor opção, talvez Teófilo estivesse precisando de ajuda.

**

Virava de um lado para o outro na cama. Não conseguia dormir.

– O que foi, querida? Para de ficar mexendo tanto desse jeito.

– Desculpe… Não sei, eu… estou preocupada com um aluno…

– O que aconteceu?

– Ele quer ser um peixe.

O marido riu. Gargalhava. Chegou a chorar de tanto rir.

– Não se preocupe, querida, é só bobagem de criança.

Sentiu vergonha da sua preocupação. É, só bobagem de criança, é claro. Fechou os olhos, e adormeceu.

**

– Mamãe, mamãe!..

– O que foi, Clara? Você está tão pálida!

– O Teófilo, mamãe! O Teófilo sumiu!

**

Conferia a regulagem do cilindro de ar comprimido. Mesmo com tantos anos de profissão, ainda se sentia nervoso naqueles breves instantes antes do mergulho. Sentia medo, mas era um medo misturado com orgulho. Não tinha sido fácil se tornar um mergulhador profissional. Riam dele desde criança, muitos insistiam que mergulho não era uma profissão, mas mantivera firme o seu objetivo.

O cilindro tinha 2.200 litros de ar comprimido. Se perguntava se seria tempo suficiente. Iria fazer um mergulho profundo, o que gastaria o ar mais rapidamente devido a pressão. Não queria nem imaginar o que aconteceria se o ar acabasse enquanto ainda estivesse lá embaixo, nas profundezas. Muitas vezes sentia esse medo de entrar no mar e nunca mais voltar. Principalmente nesses breves instantes antes do mergulho.

Colocou o capuz de borracha e ajustou a fita para fixar a lanterna. Vestiu a máscara transparente. Em breve não poderia mais respirar o ar que todos nós respiramos. Em breve, teria que respirar embaixo d’água como um peixe. Era uma capacidade fascinante, e sempre se admirava ao pensar sobre isso, mesmo com tantos anos de profissão: um homem que podia respirar como um peixe e literalmente viver embaixo d’água. Vestiu os pés de pato, colocou o pesado tubo de ar comprimido nas costas, conectou-o à máscara. Já não parecia mais um ser humano. Riam dele quando criança, riam dele e o chamavam de homem-peixe.

Terminado todos os preparativos, sua ansiedade diminuía. Já mais seguro de sua própria sobrevivência, agora que sabia que todo o esquipamento estava devidamente ajustado, se concentrava no objetivo que tinha em frente. Havia um mistério naquela região, um mistério que tinha que desvendar. Sim, é claro que as fotos lhe trariam um bom dinheiro, mas de fato o que mais o motivava era uma grande curiosidade de ver com seus próprios olhos se a lenda era verdadeira. Sempre fora curioso, e fascinado pela beleza e mistérios escondidos no fundo do mar. Riam dele como se fora louco, riam dele, mas agora iria mostrar para todos eles.

O barco parou no local planejado. Seu coração batia forte novamente. Respirou fundo, tinha que se acalmar. Se continuasse nervoso daquele jeito iria consumir muito oxigênio e precisava de um longo tempo no fundo do mar. Não iria encontrá-lo nas regiões rasas, tinha que ir para as profundezas. Teria que lidar com elevados níves de pressão.

Pulou. Ligou o ar comprimido. Agora podia respirar como um peixe, ou pelo menos era a melhor aproximação possível sem as gueiras. O mar ia se desvendando diante de seus olhos, primeiro viu peixes pequenos que rapidamente se afastavam quando ele se aproximava. Chegou mais perto do fundo, e viu belos corais multicoloridos, uma de suas grandes paixões no início de sua profissão. Agora já se interessava mais por coisas misteriosas, pelo desconhecido, ao invés de simplesmente buscar a beleza em seus mergulhos. Não só por sua própria curiosidade, mas era também mais lucrativo. Tinha que lutar pela sobrevivência, como qualquer outro animal.

Via agora os mais diversos tipos de peixe. Borboletas amarelos, com seu corpo fino, alongado e pequenas nadadeiras, brincavam entre as algas do coral. Às vezes era difícil acompanhar seus movimentos, se perdiam entre as algas também amarelas. Já os Borboletas listrados nadavam acima das algas e podiam ser mais facilmente observados. Nadavam rápido, porém, talvez procurando um lugar onde poderiam ficar menos expostos. Mais para frente viu um Garoupa-gato, com seu corpo amarronzado cheio de pintas, quase como se fosse um leopardo do mar. Seus colegas achavam a comparação engraçada, mas não conseguia deixar de pensar em um leopardo sempre que se deparava com aquela espécie. Aquela região era muito rica e colorida, havia também Jaguareçás, Garoupinhas, Linguados e os avermelhados Olho-de-cão.

Mas não podia perder tempo. Tinha que nadar em direção às profundezas. Via cada vez menos peixes à medida em que se afastava, e a iluminação diminuía. Começou a sentir medo. Não estava acostumado com mergulhos tão profundos. Ligou a lanterna, mas ela iluminava apenas uma limitada região em sua frente, enquanto tudo em volta permanecia na mais completa escuridão. Tentava retomar a calma, sentia sua respiração acelerada que diminuiria o tempo disponível para encontrar a criatura. Ativou a câmera. Será que a luz iria afastá-lo? Torcia para que não…

Os peixes agora eram menos coloridos. Ninguém precisava de cor naquele nível de profundidade, com tão pouca luz. A beleza dava lugar ao desconhecido, ao mistério. Via grupos de Peixes-lanterna nadando ao seu redor, com seus pequenos corpos que brilhavam como se fossem estrelas distantes. Algumas vezes seu feixe de luz iluminava assustadores Peixes-víbora, com o corpo fino como se fossem agulhas, mas a boca cheia de grandes presas. Via também peixes sem olhos, criaturas grotescas que não precisavam da luz para se orientar.

Será que iria encontrá-lo? Não teria muito tempo naquele nível de pressão, precisava de sorte. Conferiu o nível do ar comprimido: 400 litros. Tentava se manter calmo. Mas como era difícil se controlar. Precisava de ar suficiente para voltar, senão ficaria preso ali para sempre, preso no fundo do oceano como um homem-peixe. Finalmente, teve uma ideia. Apagou a lanterna. Viu-se na mais completa escuridão, exceto por poucos peixes que brilhavam distantes. Acendeu-a por um longo tempo, apagou de novo. Escuridão, a mais completa escuridão. Acendeu por um longo tempo mais duas vezes. Em seguida acendeu por um tempo curto, um tempo longo, dois curtos. Um curto e depois um longo. Esperou alguns minutos, nervoso. Nada. Será que a lenda era verdadeira? Existiria realmente tal criatura?

Tentou novamente: três longos, um curto, um longo, dois curtos, um curto e um longo. Nada. Talvez ele não existisse, afinal. Continuou nadando, sempre repetindo a mesma sequência. Três longos, um curto, um longo, dois curtos, um curto e um longo. Talvez a luz o assustasse. Três longos, um curto, um longo, dois curtos, um curto e um longo. Não era possível que não iria dar em nada… Três longos, um curto, um longo, dois curtos, um curto e um longo. Não queria desistir. Três longos, um curto, um longo, dois curtos, um curto e um longo. Mas seu tempo já estava mais do que esgotado, (três longos, um curto, um longo, dois curtos, um curto e um longo) se não retornasse ficaria preso eternamente no fundo do oceano.

Mas ele apareceu. Viu primeiro o seu rosto no feixe de luz: os olhos esbugalhados, a protuberância no lugar do nariz, a boca cheia de dentes, as gordas bochechas. Suas orelhas já estavam completamente deformadas, mas podia ver um pequeno buraco na lateral direita de sua cabeça. O mergulhador tremeu, de medo ou de excitação. Via agora o seu pescoço, o pescoço com as gueiras abertas e vermelhas. Suas escamas estavam eriçadas, como se estivesse arrepiado. Talvez ele também estivesse assustado de ver novamente um ser humano. Há quanto tempo vivia afastado, no fundo do oceano? Há quanto tempo não via ninguém? Podia observar agora seu corpo: ele era grande, gordo, e vermelho. Seus braços eram como longas nadadeiras, que terminavam em cinco pequenos filamentos que se movimentavam com a corrente de água. Um desses filamentos se mantinha em oposição aos outros, como um polegar. Talvez ainda fosse capaz de agarrar e manipular objetos. Talvez. Mas agora eles balançavam livres na água. Via suas pernas, transformadas em uma longa barbatana caudal. Ao contrário de um peixe comum, as movia de forma independente, como uma pessoa nadando crawl embaixo d’água. Ou como um mergulhador. Como um mergulhador. Riam dele, desde criança, riam dele e o chamavam de homem-peixe. Riam dele como se fora louco.

As fotos. Não podia esquecer das fotos. Tentava destampar a câmera, nervoso, não conseguia desencaixar a tampa da lente. Sempre conseguia apertar os dois botões laterais da tampa com tanta facilidade, nunca imaginara que se tornariam um problema. Quando finalmente a tampa soltou, percebeu que ele já havia desaparecido, fugira como um garotinho tímido e assustado. Riam dele, desde criança.

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