Peixe

Vilar da Câmara Neto

Aportei exultante. Em dois dias de pescaria solitária peguei um peixe grande, enorme para a espécie. Nessa hora a moçada deve estar no bar. Atraquei pensando no bafafá, o peixe realmente foi uma sorte danada, nunca pesquei nada igual. Precisava de uma câmera. Fui a pé até o bar, que era perto da marina. Lá estava a rapaziada, embalada no chope, fui sentando e enchendo a mão nos aperitivos. Já tinha entornado umas três ou quatro no barco pra sintonizar com o provável estado etílico em que encontraria a turma, acertei na sincronia. Nem quis saber qual era o assunto do momento. Interrompi a conversa e fui logo estrepitando o feito. A discussão pegou volume, outros frequentadores acabaram obrigados a ouvir.

— Deu trabalho, o peixe! Lutou, tentou fugir, tive que amarrar o filho da puta!

— Qual o quê, tu não tens muque nem pra cuidar do filho dele!

— Ora essa! Sabe como é comigo? Não adianta se debater: caiu na minha mão, pode rezar que já era. Precisou de umas três facadas no bucho pra se aquietar.

— Pois quedê o cadáver?

— No frigorífico, claro. Vou cortar a cabeça dele, mandar empanar e botar na sala. Só pra dizer quem é o fodão aqui!

— Empalhar, que empanar! — E ninguém se segurou na risada. Notei os olhares dos outros clientes, que balbúrdia de um bêbado sozinho já pode desafiar a paciência de qualquer um, de uma mesa inteira então nem se fala. Encarei um sujeito em particular que estava me olhando perplexo, o jornal esquecido na mão.

— Que é, vai também duvidar que matei o peixe? Quer que eu te leve pra ver o corpo?

— “O corpo”! Essa agora! Cadê o IML numa hora dessas? — A roda estourou na gargalhada, nem conseguiam mais falar.

— Vou dar uma mijada. — Levantei da mesa, o cara do jornal fingia que voltara a ler, mas senti que não tirava os olhos de mim, deixei o assunto de lado. Fui tropegando pro banheiro e lá, tentando me equilibrar já um tanto bêbado, acabei deixando que um arco de urina escapasse do controle e atingisse meu pé.

— Merda.

Tirei a sandália pra lavar na pia. Enquanto guiava pacientemente a água que saía num fio relutante, ouvi um burburinho lá fora, vozes altas, cadeiras arrastando e caindo, parecia briga. Pensei ter ouvido grito de um dos meus amigos. Agucei o ouvido, e a primeira que captei me deixou aparvalhado:

— O cara que pegou o peixe! Lá atrás, no banheiro!

Quem, eu?? Senti passos urgentes se aproximando da porta, os gritos — Polícia! Polícia! — e fiquei olhando pra porta, completamente sem ação. O que era isso? Alguma coisa a ver com a minha licença, devia ter renovado! Ou era porque cheguei pilotando bêbado? Mas pra que tanta… Não tive mais tempo de pensar: com um estrondo, a porta veio abaixo. Na reação, dei um pulo pra trás e protegi o rosto com os braços.

…Alguma porta veio abaixo, quando olhei vi que não era a minha. Não entendi, como foi isso, o barulho veio daqui mesmo!

— Não está no banheiro!

Quase que respondi: Como, não estou? Olhei pros lados e subitamente me percebi no banheiro feminino. Nem tinha dado por falta do mictório, tinha ido direto no vaso.

— Vê se escapou pela janela!

— Não dá! Volta, volta!

Olhei pra janela, lembrei que no banheiro dos homens era gradeada e aqui não, me ocorreu que era um puta preconceito isso, quem disse que só homem é que precisa de grade pra não sair sem pagar? Pulei a janela e escapei bem quando polícia arrombava a porta, desta vez a certa.

— Aqui também não está!

— Lá fora! Deve ter ido pra rua!

— Corre!

Não viram o chinelo na pia, nem a janela sem grade, sorte minha. Corri meio descalço para longe do prédio até que um carro me cortou freando, abrindo a porta do passageiro:

— Entra, entra, entra!

Quem era aquele sujeito? Entrei sugado pela urgência do chamado dele, que saiu dirigindo pela borda do terreno, evitando a atenção dos policiais. Na estrada, ganhou velocidade e me olhou rindo, admirado.

— Então foste tu que mataste o peixe?

Encarei espantado. Mais uma vez essa história, por que todo mundo dava tanta importância? Pela entonação dele, no fundo da minha consciência ainda trôpega me veio um mal-estar, uma sensação incômoda de que poderia ser “Peixe”, nome próprio, P maiúsculo. Não me ocorreu ninguém com esse apelido. O cara sorridente, simpático, ainda esperava alguma manifestação minha.

— …Peixe? Eu, olha, eu…

— Não se avexe, homem! Olha, belo trabalho! Gostei do estilo, deu até manchete, tu viu? O bucho todo aberto, as tripas esticadas do lado. Parecia coisa de artista! Deve ter dado um trabalho pra imprensa tirar as fotos, com tanta vaca pendurada. Tudo aquilo só com três facadas, tu disse? Boa, boa!

— Vaca pendurada? Onde isso?

— No frigorífico da cidade, ora bolas! — O sujeito gargalhou. — Olha, não precisa esconder nada, não vou caguetar não, também estou na marreta.

Não estava gostando nem um pouco do rumo que as coisas estavam tomando.

— Olha, eu estava fora, passei dois dias no barco, nem sabia que…

— Rá, já arranjou um álibi, boa, boa! Tou dizendo, gostei do estilo. O Amarelo vai gostar também, tu vai ver.

Opa, peraí. Amarelo? Esse apelido eu conhecia, de vez em quando estava nas manchetes, era de um chefe do tráfico da cidade, a polícia estava há meses tentando pegar o cara.

— Vai gostar, tu vai ver! Parabéns! Tirou o Peixe da jogada, livrou a gente de uma dor de cabeça infernal. Esse cara era uma espinha na nossa garganta. — Riu do próprio trocadilho: — O Peixe era uma espinha! Vai gostar, vai gostar muito!

Não achei graça nenhuma. Minha nossa, entenderam tudo errado. E a Polícia também! Mas como é que ela… Puta merda, o cara do bar, com o jornal na mão, só podia ser um policial disfarçado! Fazendo o quê? Seguindo o assecla do Amarelo? Esse que está do meu lado. Esse com quem eu estou fugindo. Merda, merda, merda! Meu interlocutor afinal percebeu minha expressão estarrecida e aliviou o acelerador, desconfiado:

— Peraí, vai me dizer que tu tem alguma coisa a ver com o Pereba? — Pelo jeito outro traficante, pelo jeito de uma facção rival.

— Não! O Pereba, Deus me livre, que é isso, tenho nada a ver com Pereba nenhum não!

— Então pronto. Tá contra o Pereba, tá com a gente! Vamos lá então, a gente chega num minuto.

Vamos lá pra onde? Só pode ser pra ter com o Amarelo, puta que o pariu, como é que eu me meti numa dessas? E eu aqui indo pra, nem sei qual é a gíria pra isso, toca do lobo?, ninho da águia? O Amarelo ia ficar roxo de raiva quando descobrisse que era só história de pescador, nem mentira era, o peixe era grande mesmo, mas não era o Peixe, seja lá quem for esse. Duvido que simplesmente me deixasse ir embora. Só pensava em sair correndo do carro, como é que eu faço o cara reduzir a marcha, dar meia-volta? Só que as próprias circunstâncias acabaram resolvendo o meu problema, ou melhor, arranjando outro. Do nada, uma frenada súbita e um grito do meu lado:

— Merda, a casa caiu!

A exclamação foi tão inesperada que por uns instantes eu olhei pros lados procurando alguma construção desabada. Mas a atenção do sujeito estava mais adiante na estrada, enquanto engatava um retorno atabalhoado, confiando na suspensão do carro que quicou feio no meio-fio. Quinhentos metros adiante, atrás agora, uma aglomeração de radiopatrulhas fechando a entrada de um sítio, provavelmente o próprio covil do Amarelo. Meu colega só repetia:

— A casa caiu, a casa caiu!

Vi o velocímetro passando rapidamente da marca dos cento e vinte, eu aqui com um pé descalço, sem carteira e sem cinto de segurança. O cinto! Afivelei-o, apavorado, acertando o encaixe só na terceira tentativa, percebendo o ponteiro brincando perto dos cento e cinquenta. A merda do tráfico é isso, muito dinheiro rolando, só carrão importado na mão desses meliantes. Foi-se a época de bandido de Uno e fusquinha. Olhei pra trás e vi que a polícia tinha nos visto, já tinha engatado perseguição contra nós. Meu motorista parecia disposto a espremer mais potência do motor só pela pressão do pé contra o fundo do acelerador. Olhei adiante pra via, tentando pensar em qualquer coisa, quando me ocorreu que não tínhamos saída, literalmente:

— Pra onde estamos indo? A estrada termina na marina!

— Puta merda!

Tirou o pé do acelerador. O cara pensou, juro que pensou, em dar um cavalo-de-pau ali mesmo, naquele pique. Quase gritei, me contive, não se grita com alguém que está na direção de um carro, ainda mais nessa velocidade. Ainda mais se for um capanga do Amarelo. Ele olhava pras laterais ansioso, entendi que estava procurando um ramal, uma via secundária. Escolheu uma saída jeitosa, jogou o carro com tudo.

— Espera!

Não sei se ele tinha percebido que era a entrada de um sítio, a porteira estava logo adiante. Não teria adiantado: com a velocidade e a curva mal calculadas, o carro acabou perdendo o controle e saiu do traçado de terra batida, pipocando nos arbustos.

Um clarão súbito no meu rosto, pensei numa explosão ou na morte chegando. Era o airbag. Silêncio. Tentei abrir minha porta, nem se mexia, olhei pela janela e o chão estava colado no vidro, o carro tinha tombado de lado. O motorista tinha caído sobre mim, gemendo, uma sangueira danada, bem que avisei do cinto, ou só tinha pensado? Me esquivei do sujeito, escalei em direção à porta do condutor, ela até abria, mas eu não conseguia segurá-la, a gravidade fechava. Percebi o vidro aberto, escapei, as sirenes chegando, ainda nenhuma viatura à vista, saí manquitolando com uma fisgada na perna, na hora não percebi a dor. O asfalto, arcos pretos desenhados a pneu, na sequência os sulcos de terra revolta e a cerca-viva destruída, deitada para o carro capotado, poeira, fumaça, um estrago. Um outdoor luminoso com a inscrição “← ELES FORAM POR AQUI” não teria sido mais eficaz. Não tinha dado nem vinte passos quando as viaturas chegaram cantando pneu.

— Você descalço, parado!

Verdade, minha outra sandália tinha sumido. Levantei as mãos, fiquei na dúvida se eu me virava ou se obedecia à risca a ordem. Senti alguém se aproximando, fui derrubado com violência e imobilizado com uma chave de braço bem treinada. Tentei articular uma explicação, mas tinha grama na minha boca.

— No carro, tá aqui o outro, no banco do passageiro! Esse aí é que estava dirigindo!

Que beleza, eu já tinha sido promovido a motorista. As algemas foram um alívio, já que o brutamontes saiu de cima de mim. Agora sentia a dor na perna. Cuspi a terra da boca, antes da primeira palavra já fui cortado:

— Cala tua boca!

Outro carro chegando, ouvi uma voz alertando:

— Segura esse, que é o cara que despachou o Peixe!

Olhei pro recém chegado. Era o cara do jornal. Pronto, vai ser um inferno explicar tudo isso. Não conheço nenhum advogado. Com muita sorte talvez eu consiga sair amanhã, dois dias talvez, que hoje é sábado. Merda, o barco! O gelo vai derreter e o peixe vai acabar estragando.

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