A Descoberta

Armando Alves Neto

— O que foi que você descobriu, Cob? — perguntou o jovem escudeiro. Instruído para ser meio cavalariço, meio sacerdote, Gerad sabia que devia tratar o bárbaro por senhor, mas após seis meses seguindo-o em suas andanças, o título virou Senhor Cobalt Brennier, depois apenas Senhor Brennier, Colbalt, e por fim, Cob de Ferro.

— Eles estão lá, garoto. Acima das muretas de pedra. Próximo ao entroncamento do rio.

— Rio? — Gerad rebateu. — Não há rio nas terras altas.

— Pois agora, parece que há — o bárbaro colocou a espada no chão. Bebeu um pouco de água do cantil e limpou a barba. Tinha sempre uma sede descomunal, bastante adequada a seus quase dois metros de altura. — Acho que fizeram um para eles.

— Fizeram um rio?

— Sim. E bem maior do que o Drafith. Mas de água bem mais limpa… — sorveu outro gole.

— Como isso é possível?

— Não sei se quero descobrir — Cob tinha um olhar sinistro.

Ele está com medo, Gerad sabia. Deuses, vi essa expressão em seu rosto antes, mas fazem meses. — São tão poderosos assim?

— Se metade do que os aldeões disseram for verdade, então eles são maiores do que aqueles seus deuses animais, garoto.

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— E por que precisam de nós? Quero dizer, de você?

— Isso, eu desejo descobrir — Cob desprendeu a placa de peito e a deixou cair sobre o manto aveludado que lhe servia de cama. — Mas não agora. Preciso descansar. Logo vai ficar muito escuro. Não teremos lua se aquelas nuvens continuarem vindo em nossa direção.

— Podemos fazer uma fogueira? — Gerad perguntou, temendo pela resposta. Já faziam duas noites que os andarilhos passavam frio nas terras altas, desde que tinham deixado a vila dos camponeses. Cob de Ferro temia que o brilho das chamas pudesse atrair ursos das montanhas. Pelo menos, era isso que ele argumentava, mas Gerad desconfiava ser por causa de coisas piores.

— Lamento garoto — o gigante respondeu.

E foi só isso que falou por um longo tempo. Um dia inteiro desbravando as montanhas a pé certamente podiam deixar um homem indisposto para conversar. Mesmo um resistente e forte como Cobalt Brennier, líder dos Caçadores de Prata, Senhor dos Contrabandistas do Mar Fino e herdeiro das Colunas de Sardipe. Mas agora, os Caçadores de Prata estavam quase extintos, o novo rei subjulgara todos os contrabandistas da costa e as colunas caíram depois da invasão Parda. Ele agora tem a mim como amigo, Gerad pensou. Um dia descobrirei como esse homem deixou de ser a lenda que foi para virar esse mercenário sem posses, velho, rabugento e beberrão.

— O primeiro turno é seu, garoto — o bárbaro recostou na árvore junto aos cavalos e começou a bebericar o vinho. Havia dois barris que tinham sido abastecidos quando deixaram a vila, e ainda estavam longe de secar, mesmo com a sede de Cob.

— Pode deixar…

 

 

* * *

 

 

Gerad avistou o rio do alto das colinas, o mapa das Terras Altas estendidas sobre a cabeça do cavalo malhado. Aquilo devia estar impresso no pergaminho, mas não estava. Impossível acreditar que um cartógrafo, por mais álcool que carregasse na barriga, tivesse ignorado isso. Cob seguia à frente e, mesmo não sendo sua primeira vez, parou para contemplar o rio. Havia quilômetros de água cristalina se estendendo no vale e ziguezagueando pelas montanhas até o Canyon das Aves, com largura maior do que todos os riachos de sua terra natal juntos.

— Onde eles estão? — o cavalariço quis saber.

— Em toda parte, eu acho — Cob coçou a cicatriz abaixo do olho esquerdo, perdido ainda quando liderava os corsários sobre o Mar Fino na batalha civil de Orfer, anos atrás. — Não precisaremos procurar por eles. Foi o que o ancião da aldeia disse. Já sabem que estamos aqui.

Aquilo fez um calafrio percorrer a espinha de Gerad. — Será verdade que eles não tem rosto? Que falam sem mexer os lábios?

— Se eles falam sem mexer os lábios, então eles têm boca. E se tem boca, tem rosto — Cob avançou com seu cavalo de batalha.

Gerad o seguiu, até a margem arenosa do rio. Percorreram-na por cerca de quatrocentos metros até acharem um ponto onde a travessia poderia ser segura. Os animais ficaram empapados pela água gelada e o cavalariço encharcou as botas e a virilha.

— Não deixe que bebam dessa água — disse Cob de Ferro. — Até que saibamos o que são esses seres, melhor não confiar em nada que vem deles.

Acompanharam o rio por mais duas horas, sempre mantendo o sol à direita. Gerad viu pequenas luzes coruscarem nos picos das montanhas ao oeste e ao leste, como se espelhos minúsculos refletissem o brilho da manhã. Podem ser veios de prata, ele pensou, mas não disse nada para seu senhor. O homem gostava de pilhar, não de minerar.

Então, viram algo revelador na estrada que margeava a água. Uma figura alta, maior do que Cob de Ferro em seu cavalo, e tão magra como a esposa do ancião da aldeia. Coberta por um manto negro da cabeça aos pés, lembrava o próprio Senhor do Sudário, comandante da morte e protetor das dimensões escuras da perdição, conforme dizia a fé dos antigos povos. Mas em vez do arco que a assombração usava para ceifar vidas, o sujeito de agora carregava apenas um longo cajado de madeira retorcida, possivelmente trazida pelo rio.

— Fique aqui, garoto. Mantenha as mãos nas rédeas. Se eu desmontar do cavalo, quero que dê a volta e fuja sem olhar para trás.

 

 

* * *

 

 

Ao cair da segunda noite de viagem, eles pararam em frente a entrada da caverna. Catacumbas de Grid elas eram chamadas pelos povos da maioria das vilas aos pés das Terras Altas, mas muitos também falavam na Boca do Inferno.

— Chegamos — disse Cob, as mãos tapando os últimos raios de sol do crepúsculo caindo sobre os pináculos acima das grutas.

— Ainda está enxergando bem? — Gerad indagou.

— Pare de perguntar isso!

O escudeiro ainda não acreditava que o olho esquerdo de Cob de Ferro voltara a funcionar. Bastou um toque da criatura encontrada no rio com a ponta do cajado para que o tom fosco da retina voltasse a ficar transparente e tão azulado quanto era seu olho bom. Cob não comentou sobre isso com ele. Tão pouco explicou a troco de que lhe fora ofertada aquela dádiva, mas o fato é que agora estavam diante do local onde o bárbaro deveria cumprir a missão que lhe foi dada.

— O que há lá dentro? Vai me contar agora?

Cob suspirou fundo. Dessa vez, seus dois olhos projetavam medo. — Uma criatura…

— Um urso?

— Nenhum urso vive dois mil anos. Nem qualquer ser deste mundo — o guerreiro puxou a espada, provocando um som de aço raspando contra couro.

— Dois mil anos… — o jovem engoliu em seco. — Como?

— Sacrifícios. Todos os anos, um jovem do sexo masculino de uma das dezenove vilas lá embaixo é escolhido e trazido para cá.

Gerad então entendeu o que estava acontecendo. Não era tão bobo quanto sua mãe dizia, afinal. Estou aqui para morrer.

 

 

* * *

 

 

Gerad começou a escutar ruídos oriundos das entranhas da caverna. Estava bem na entrada, sentado no chão, as mãos atadas atrás das costas e os pés amarrados. Ouviu os gritos de Cob reverberando na escuridão. Gritos de terror, de agonia, de desespero. A espada batia contra as paredes, ao passo que sons guturais ecoavam, algo que se assemelhava ao rugir de vários leões misturados ao bramido de elefantes. Gerad nunca vira um paquiderme, mas seu irmão conhecia e imitava os sons do animal.

Fuja garoto! — o bárbaro gritou de dentro da caverna.

O plano deu errado, Gerad agora sabia. Cob havia atado frouxamente suas mãos e pés e o colocado na frente da entrada da gruta para que seu cheiro atraísse a criatura. Depois entrou lá, de espada em punho, para tentar surpreendê-la quando ela deixasse o covil. O bárbaro nunca levava seu fiel companheiro tão próximo do perigo, mas dessa vez, o jovem era a única isca que poderia fazer com que a missão desse certo. Mas não dera.

Fuja — Cob de Ferro repetiu, em meio a grunhidos animalescos.

Gerad desfez os nós e se levantou. Atrás de si, estava escondida a besta de duas flechas do guerreiro, deixada para trás como forma de protegê-lo. E o escudeiro atirava bem. Tomado de uma súbita coragem, e certa curiosidade, ele não fugiu. Ao contrário, apoiou a arma contra o ombro e fez mira na direção da embocadura da caverna. Ouviu um som de metal batendo contra rocha, somado a um grito seco. Cob havia sido arremessado na parede pela criatura, ele suspeitou. Engatilhou a arma. Então, pés monstruosos se projetaram para fora das sombras. Sob a luz da lua, Gerad viu tentáculos se esgueirando entra as pedras, e viu fumaça saindo de protuberâncias na pele escamosa.

Sem hesitar, o cavalariço mirou a besta e disparou uma seta onde achava estar o tronco de seu algoz. Após um grunhido, os tentáculos recuaram de volta para a escuridão, mas Gerad não. Destravou o segundo mecanismo e atirou novamente. A criatura então grunhiu mais alto, se debateu nas paredes e colidiu contra o solo.

Gerad esperou. As mãos tremiam ao ponto de não suportar mais o peso da besta. Deixou-a cair sobre seus pés. Com as pernas bambas, avançou.

— Cob? — chamou, mas o guerreiro não respondeu. — Senhor?

Começou então a rezar para o Deus-leão, pedindo coragem. Rezou para o Deus-Coruja e pediu sabedoria. Pediu também para poder enxergar no escuro, mas isso, não conseguiu. Mesmo assim, viu quando o corpo de Cob rolou para fora da gruta, com duas flechas cravadas no tronco, uma entre os pulmões e outra na barriga, à direita.

— Fuja, garoto… — o guerreiro de ferro balbuciou entre lamurias de agonia. — Não entre aí.

Mas Gerad não fugiu. Com a nova coragem que lhe fora enviada dos céus, estava disposto a descobrir o que havia lá dentro. Apanhou a espada do mercenário e embocou na caverna. Não viu nada de estranho no primeiro salão e nem nos trinta passos subsequentes que deu na penumbra. Quando seus olhos começaram a se acostumar à escuridão, vislumbrou uma mancha gigantesca, de mais de três metros de altura, no fundo do corredor. Tinha tentáculos com certeza. E pelos também.

— O que você veio fazer aquiiiii? — perguntou a voz abissal, profunda feito o sopro de uma trombeta de guerra.

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Os músculos de Gerad enrijeceram, inclusive os dos lábios. — Vim para matá-lo… — balbuciou.

— Por quêêêêê?

— Não sei — ele vacilou, baixando a espada. — Quem ou o que é você?

— Não sei como explicar isso — a sombra bradou. — Para alguns, sou a escória da criação, o refugo que sobrou dela. Para outros, sou o objetivo principal da existência. Há mundos em que sou a representação do bem. Em outros, sou a encarnação do mal. Para mim, vocês humanos são apenas alimento, tão insignificantes que só os posso devorar aqui.

— Mas o que é você, afinal?

Tentáculos então se projetaram da escuridão e se agarraram ao pescoço de Gerad, frios e pegajosos como lesmas de fazenda. Ele deixou a espada cair e começou a sufocar frente a pressão, mas no fim ainda ouviu as últimas palavras da criatura.

— Eu? Eu sou um peixeeeeee…

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