Parafuso

Armando Alves Neto

O ano era 1944. Onze de dezembro de 1944. O lugar, Itália. Sessenta e três quilômetros a sudoeste da cidade de Bologna para ser mais exato. Hoje estou velho e minha memória fraca mal me permite recordar a roupa que usei ontem, mas, por alguma razão estranha, lembro-me daqueles dias passados como se os estivesse vivendo agora.

Eu estava sentado do lado de fora da tenda-hospital que os americanos haviam improvisado na retaguarda do acampamento, mas podia ouvir os gritos dos feridos e moribundos como se fosse um deles. O lugar estava lotado. Todos os cinquenta e cinco leitos eram agora ocupados por soldados da vanguarda de nossos dois últimos ataques fracassados, sendo que a esmagadora maioria eram de brasileiros.

Não quero revelar o nome que uso hoje, e por isso você já deve imaginar que o que estou prestes a narrar deveria ir para o túmulo comigo, mas naqueles dias me chamava Osvaldo Taylor. Apesar do sobrenome estrangeiro, nasci em São Paulo e integrava a FEB, Força Expedicionária Brasileira, combatente número 3069. Nossa missão, tomar a elevação denominada Monte Castello das mãos dos malditos nazistas que haviam se acocorado no cume. O ponto, além de ser o mais alto em dezenas de quilômetros ao redor, era a chave para a estrada que conduzia ao norte do país. Mas minha alcunha de batismo era pouco usada naqueles dias de guerra. Durante os combates, eu sempre seguia na linha de frente do pelotão, avançando vorazmente contra os temíveis chucrutes, e mesmo nesses instantes críticos meus conterrâneos só se dirigiam a mim como jornaleiro.

A explicação para o apelido era simples e nada glamourosa. Foi minha a ideia de usar os jornais velhos dos ianques para forrar o interior de nossos uniformes verde-oliva-claros contra o frio cortante que nos comprimia. De todos os problemas oriundos da falta de preparo do governo do presidente Getúlio, o envio de vestimentas pouco adequadas ao rigoroso inverno europeu para vestir os soldados tupiniquins se mostrou de longe o pior. Mesmo com dois anos de atraso e preparação, não estávamos prontos para entrar na guerra. E não fossem as grossas camadas do The Washington Post, New York Times e International Herald Tribune, teríamos perecido logo depois de aportar no velho mundo. Por isso, eu esperava próximo à barraca dos feridos.

Tinha saído ileso às duas últimas tentativas frustradas de tomada do pico, e meu objetivo principal agora era roubar alguns maços de folhas de jornais que os médicos dispunham para forrar as camas e padiolas. Felizmente não faltavam papéis para ninguém, já que, todos os dias, chegavam remessas e mais remessas de periódicos americanos que, mesmo com semanas de atraso, mantinham as tropas a par do que acontecia na América e na Europa.

Nós da FEB dividíamos a dura missão de rechaçar as forças da 232ª Divisão de Infantaria nazista com pelotões estadunidenses em sua maioria e ingleses em sua minoria. Compúnhamos assim a Força Tarefa 45, um dos vários agrupamentos poliglotas que ampliavam os domínios dos Aliados pelo continente. Lutávamos não apenas contra as tropas que defendiam as Nações do Eixo, mas também contra as chuvas torrenciais, o céu encoberto, a neve trazida pelo vento gelado e a lama que se acumulava no sopé da encosta.

— Ei, Jornaleiro? — uma voz atrás de mim interrompeu meus pensamentos. Olhei e vi Carlos, um soldado com quem havia dividido o alojamento em Nápoles. — O Capitão quer te ver — ele completou, apontando na direção das barracas do alto-comando e desaparecendo logo em seguida.

Em princípio, não achei estranha a convocação. O Capitão Braz sempre recorria a mim quando tinha que conferenciar com algum dos comandantes americanos. Não creio que confiava mais em mim do que nos outros intérpretes, mas provavelmente pensava que meu sobrenome e o fato de minha mãe ter nascido nos Estados Unidos fazia de mim alguém mais confiável para os gringos. E, embora nunca tivesse ido até a América, modéstia a parte, falava um inglês impecável, quase sem sotaque.

Larguei os jornais onde estavam, ajeitei a alça do meu Springfield no ombro e parti. Cruzei todo o acampamento e não precisei pedir licença aos homens que protegiam a entrada da barraca, pois meu comandante já me aguardava. Saiu apressado para ter comigo e afastou-me do grupo aglomerado em volta de sua tenda, mal me permitindo prestar-lhe continência. Foi só então que reparei que estavam ali não apenas recrutas brasileiros, mas também soldados vestidos com altivas jaquetas camufladas e imponentes fuzis M1 Garand.

— O General Clark está aqui, rapaz — confidenciou-me o capitão, e vi que havia nervosismo em sua voz. Apertava-me braço com mais força que o necessário.

— O general? — repeti, surpreso.

O General Mark Clark era o principal comandante americano responsável pelos ataques da campanha na Itália, e todas as divisões da Força Tarefa 45 estavam sob suas ordens diretas. Apesar disso, nunca o tinha visto pessoalmente, e achava que ele jamais viria até a frente de batalha.

— Sim. Ele e o General Mascarenhas. Querem falar com você, filho.

— Comigo. Mas por quê?

— Não sei. Não me disseram. Mas acabam de dar a ordem para atacar imediatamente. Faremos outra incursão ao pico amanhã bem cedo. Vou dar o recado às tropas. Esteja preparado, soldado. Se não tomarmos Monte Castello desta vez, teremos sérios problemas — meneou a cabeça antes de ordenar a seus subordinados que me deixassem entrar na tenda. Depois, partiu sem olhar para trás.

Apreensivo, adentrei a barraca, mas primeiro me obrigaram a me desfazer do meu fuzil e de minha Colt 45. Sentados junto a uma precária mesa metálica estavam dois homens. O General José Batista Mascarenhas de Morais era um sujeito de idade já avançada, com mais de sessenta anos, mas esbanjava saúde. Usava óculos arredondados, as orelhas eram baixas e as sobrancelhas curtas e grossas. O rosto estava imaculadamente livre de pelos, e os cabelos acinzentados já ficavam brancos nas laterais da cabeça larga. Já o General Mark Wayne Clark era um homem delgado e alto, de face fina e nariz adunco. Dificilmente passava dos cinquenta anos, e talvez fosse até mais novo, já que a guerra desgastava bastante seus heróis. Usava uma boina verde-escura e, tal qual o colega brasileiro, estava muito bem protegido do frio por grossas camadas de lã abaixo do casaco militar.

— Descansar, soldado. Sente-se — Mascarenhas se dirigiu a mim em inglês, apontando uma das cadeiras vazias.

Fiquei quase cinco segundos ainda em posição de sentido para demonstrar meu respeito, antes de seguir a ordem.

— Ouvi dizer que combateu com bravura aqui e em Lucca, senhor Taylor — Clark disse, fitando-me com sagacidade.

— Senhor, obrigado, senhor! — respondi, incerto se aquilo era um elogio.

— É um de nossos homens mais corajosos, General — Mascarenhas se dirigiu ao americano, esboçando um sorriso tenso.

O gringo então puxou a mão escondida sobre a mesa, trazendo um charuto aceso até os lábios. Soltou fumaça ao falar. — Amanhã tomaremos esse maldito monte, soldado. Faremos um ataque coordenado e colocaremos os alemães para correr. É a nossa última chance de vitória.

Deu outra tragada e, enquanto esperava, fiquei tentando imaginar porque ele estava me falando daquilo. Eu, um mero recruta sem qualquer habilidade especial.

— Muitos morrerão amanhã — ele prosseguiu — e temo que possa ser um deles, senhor Taylor. Quer estar na vanguarda da sua guarnição, soldado?

— Foi para isso que cruzei o mar, Senhor — respondi sem relutância.

— Bem, estamos pensando em poupar-lhe dessa empreitada. Embora a missão que penso em lhe dar talvez não seja menos perigosa. O que acha?

Fiquei em silêncio.

— O General lhe fez uma pergunta, soldado — Mascarenhas interveio, sisudo.

— Estou aqui para seguir ordens, Senhores.

— Pois minha primeira ordem — o homem escondeu o charuto — é para que arranje roupas mais quentes, soldado. Se não percebeu, está fazendo uns menos quatro graus fahrenheit lá fora.

Sorri, mas meu interlocutor não correspondeu ao gesto.

— Em segundo lugar, é imprescindível que a nossa conversa não deixe essa tenda — ele murmurou, aguçando mais minha curiosidade.

— Como quiser, senhor.

O general americano então se recostou na cadeira e pareceu relaxar. — Há três dias, nossa inteligência interceptou uma mensagem de rádio das montanhas, destinada a tropas alemãs a leste daqui. Havia bastante interferência no momento, por isso, não pudemos decifrá-la integralmente. Há muitos detalhes que você não precisa saber, mas um, em particular, nos chamou a atenção.

— E o que foi? Se é que posso perguntar.

— Pode sim. Mas, primeiro, quero que me responda uma coisa, soldado. O que pode me dizer sobre parafusos?

Nem preciso falar que fiquei surpreso com a questão. Nem tanto por seu conteúdo, mas por quem a fazia. Antes de me alistar para o serviço militar, trabalhei toda minha juventude numa empresa que fabricava fixadores. A pequena tornearia era do meu tio, irmão do meu pai, e nela aprendi a fazer todo tipo de porcas, roscas, arruelas, rebites, chumbadores e, claro, parafusos. Fornecíamos peças para várias áreas, desde o setor de construção civil até as poucas empresas navais do país. O Exército era um de nossos principais compradores e, não por coincidência, resolvi me alistar aos dezoito anos.

— Já trabalhei em uma fábrica de parafusos, senhor. Modéstia a parte, sei tudo o que há para saber sobre eles, mas não há muito para saber.

— Então você é o nosso homem, senhor Taylor — o americano deu outra baforada.

Seu colega brasileiro se levantou e rodeou minha cadeira, impaciente. — Os americanos realizarão uma incursão secreta dentro de doze horas, soldado. Precisam de alguém com os seus conhecimentos e desejam um representante do Brasil nessa empreitada. Eu o enviarei para que testemunhe os fatos e os repasse a nosso alto comando.

— Aceito de bom grado, senhor — respondi. — Mas ainda não consigo entender como meus conhecimentos sobre parafusos podem ser úteis.

— Nós também não sabemos, garoto — o General Clark se levantou, apagou o charuto contra a sola da própria bota e o atirou ao canto, sem remorsos. — Mas a mensagem que interceptamos dizia que os alemães farão o transporte de uma nova arma secreta para uma posição bastante privilegiada. Como já falei, tivemos problemas em decifrá-la, mas, segundo seu conteúdo, parece que pretendem testá-la aqui contra nós. Disseram ser uma arma tão particular que permitirá aos nazistas invadir a União Soviética, e nós sabemos que se isso acontecer, será o fim da guerra. Não temos ideia do que seja essa arma, mas seu nome tinha duas palavras. A primeira nós perdemos, mas a segunda era Schraube, que em alemão significa parafuso.

— Sua missão, soldado, — Mascarenhas interveio — é acompanhar o grupo americano, ajudá-los na interceptação da arma secreta e trazê-la para cá. E, se por acaso, seus conhecimentos de tornearia e peças mecânicas forem requisitados, fará o melhor que puder para ajudar. Entendeu?

— Senhor, sim, senhor — levantei-me e colei os braços ao lado do corpo com firmeza.

— Ótimo! — proferiu Clark. E, antes de deixar a barraca, completou. — A partir de agora, está sobre o comando direto do Coronel Willians.


* * *


febpatrulha

Partimos da frente de batalha em direção ao sul em menos de uma hora. Fora meus pertences habituais, o rifle, a colt, provisões, capacete, foto de minha mulher e dois filhos e, claro, a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida que me protegia todos os dias, carregava também uma jaqueta militar americana que meu novo comandante tinha me entregado. Trazia bordado no alto esquerdo do peito o nome Taylor, mas eu desconfiava que ela não fora feita em minha homenagem, já que havia dois furos nas costas, ainda manchados de sangue. Taylor era um sobrenome bastante comum entre as guarnições norte-americanas.

O Coronel Willians era um homem truculento e sisudo, ainda jovem, mas com muita experiência de combate. Não sei se gostou de ter um brasileiro no meio de seu grupo, mas também não parecia satisfeito com nenhum dos outros soldados escolhidos para a missão. Éramos vinte e sete homens ao todo, mas pouco tempo tive para conhecê-los. Precisávamos marchar rápido e em silêncio, pois tínhamos pressa e logo sairíamos dos domínios seguros conquistados por nossas tropas.

Aquela foi uma dura tarefa. Transpusemos quase dezoito quilômetros em menos de três horas antes do anoitecer. A falta do sol e o mau clima começaram logo a retardar nosso avanço, mas, ainda sim, alcançamos o objetivo antes da meia noite. Segundo o comandante, havia uma pequena estrada escondida entre as montanhas que as tropas alemãs e italianas utilizavam para interligar o norte ao sul do país. Tratava-se de um terreno com acesso muito difícil, escarpado, de modo que não pudesse ser tomado por grandes agrupamentos. Mas essa não era a principal razão de nosso grupo ser pequeno. Assim que o sol nascesse, nossas tropas tentariam tomar Monte Castello pela terceira vez, e precisaríamos de todos os homens para tal empreitada, dispondo apenas de um reduzido contingente para a missão secreta. Dias mais tarde, soube que a tentativa havia fracassado novamente, e dei graças por não ter estado presente, pois quase cento e cinquenta brasileiros e outros muitos americanos pereceram na frente de batalha. Seria necessária ainda uma quarta incursão para que as forças aliadas finalmente conseguissem tomar o pico dos alemães, e essa acabou sendo a principal vitória da FEB em toda a Segunda Grande Guerra.

Voltando a nossa missão, encontramos a tal estrada sem muitos contratempos. Tratava-se de um pequeno veio tomado de lama e gelo, protegido em ambos os lados por morros de mais ou menos vinte metros de altura, bastante inclinados. Era tão estreita que mal permitia o avanço de um exército com mais de oito homens de largura. Ali, o coronel explicou-nos, faríamos a emboscada. Ele distribuiu seus subordinados nos dois montes que margeavam a passagem e posicionou-nos estrategicamente ao longo de trinta metros. Esquematizou no chão enlameado o que desejava executar e como queria que nos portássemos no decorrer da ação.

Ficamos horas escondidos atrás dos montes de neve vigiando a estrada, enquanto lufadas geladas cortavam-nos por entre as rochas. A temperatura despencou durante a madrugada e eu jamais sonhara sentir tamanho frio na vida. Provava periodicamente o conhaque do cantil trago pelo companheiro ao meu lado, e temia que a maioria dos homens do nosso grupo já pudessem estar bêbados demais para a empreitada.

Devia ser próximo de 4 da manhã quando os vigilantes indicaram uma movimentação de norte para sul da estrada. O que vi a princípio foi apenas um par de lanternas fracas mirando o chão e sombras se arrastando por trás delas. Outros pares de luzes surgiram e, por entre os zumbidos do vento, ouvi o som de motores distantes, rodando a baixa velocidade. Uma fileira de cinco caminhões progredia lentamente ao longo da pista de gelo, todos com as carrocerias encobertas por grandes armações redondas tapadas com lona. Havia vários buracos nas laterais, e canos de rifles e espingardas escapavam por todas elas.

— Deve haver pelo menos uma centena deles — cochichou Brian, o dono do cantil.

— Atenção, homens! Preparem-se para a interceptação. Ao meu comando…

Engatilhei o rifle e engoli em seco. Sabia que mesmo que os veículos tivessem somente cinquenta defensores, seria uma missão difícil. Éramos apenas vinte e sete e, embora contássemos com o fator surpresa e a escuridão da noite, ainda tínhamos a lama e a neve contra nós. E o inimigo contava com a proteção do interior dos caminhões que, afinal, deveria servir para alguma coisa.

Após trinta longos segundos, o comboio chegou perto o suficiente para ser abordado, mas nosso comandante ainda hesitava. Só depois ficou claro para mim o que ele pretendia. Queria deixar que os veículos passassem por nós, para que assim tivéssemos boas posições de tiro pela retaguarda. Foi uma pequena mudança de última hora que acabou se mostrando positiva. Um pouco mais a frente de nossa localização, o vale se apertava, transformando-se num estreito onde nossos inimigos não teriam escapatória. As ordens eram disparar inicialmente do alto dos montes e esperar a explosão, para depois escorregar pelo terreno lamacento e ir ganhando posições até que os alemães fossem comprimidos na armadilha.

Fogo!

O comando ecoou nos meus ouvidos e os disparos começaram a retumbar pelo vale. Estava tão nervoso que esqueci de destravar o rifle, mas acertei um inimigo que havia pulado para fora do quarto caminhão com meu primeiro tiro. Outros mais se seguiram, e começamos a escutar as saraivadas de resposta, oriundas do agrupamento alemão. Idiotas, atiravam mesmo sem saber onde estávamos, e seus tiros voaram longe por cima de nossas cabeças.

Os caminhões continuaram avançando, mas por pouco tempo. Quando uma granada rolou dos arbustos congelados mais a frente e explodiu o primeiro veículo, sabíamos que era a hora de deixar nossos esconderijos.

Avançar! — gritou o comandante, e os homens começaram a correr em silêncio, mas disparando pesadamente.

Comecei a saltar para a dianteira, encosta a baixo, e logo de saída afundei o pé em uma parte fofa do terreno. A lama deixada pela neve era gelada e pesada, e isso atrasou minha chegada ao pé da estrada. A essa altura, todos os caminhões já tinham parado, tendo em vista a impossibilidade de seguir em frente, e os ocupantes puseram-se em posição defensiva, identificando facilmente nós, seus algozes. O último veículo, porém, conseguiu dar marcha ré e escapar da emboscada, mas não antes de sofrer dezenas de disparos.

Recuperei-me rápido da primeira falha e corri ao lado de Brian, protegendo o flanco esquerdo de nosso batalhão. Vi o momento em que dois tiros o acertaram, um no pescoço e outro na barriga, e vi quando ele despencou no chão e rolou morro abaixo. Os sons ocos das balas penetrando suas entranhas ficariam ainda muitos anos rebombando em meus ouvidos, mas não havia tempo para lamentar as perdas.

Lutei para me manter de pé, mas o solo estava bastante escorregadio, e esse talvez tenha sido o principal imprevisto de nossa operação. Vi mais cinco de nossos homens caírem antes de chegarem à estrada, mas cada um deles levou pelo menos três nazistas consigo. O avanço mostrou-se bem mais difícil no terreno plano, pois os inimigos já tinham tido tempo suficiente de organizar uma defensiva, mas aproveitamos bem a vantagem de nossa antecipação. Nós também não ficamos expostos e usamos as árvores e montes de neve à beira da trilha como proteção.

Agachei-me atrás de um pedregulho pontiagudo e dois companheiros fizeram o mesmo com as rochas ao lado. Parecia agora que protegíamos as ameias de um castelo, e utilizamos a posição privilegiada para dar cobertura ao avanço dos nossos homens de infantaria. Três deles tombaram nos cinco metros iniciais de corrida, mas seis chegaram ao quarto caminhão e metralharam os ocupantes da carroceria. A outra parte do nosso grupo veio pela frente, e estavam prestes a tomar o segundo veículo depois de acabarem com os poucos que haviam sobrevivido à explosão do primeiro. Usei esses instantes para recarregar meu Springfield.

Parecia que tudo correria conforme o planejado, até que fomos surpreendidos pela retaguarda. Dez homens montados em motocicletas saltaram para fora do caminhão que escapou e nove deles vieram para cima de nós. O décimo tomou a estrada de volta e desapareceu na cerração, levando as notícias do ataque. Abatemos dois condutores antes de sermos abordados. Saltei para o lado a fim de evitar um atropelamento, e o susto deu novo fôlego a nossos adversários. Um segundo motoqueiro avançou sobre mim, mas um disparo certeiro do Comandante Willians o abateu.

— O caminhão, garoto! — ele gritou para mim, apontando o terceiro veículo.

Juntos, corremos em direção à carroceria, alvejando os dois atiradores que protegiam a entrada da caçamba. Ao atingirmos a traseira, me assustei com o tiro que acertou a cocha do meu superior. Ele caiu sobre mim, gritando de dor, e nos recostamos na carreta, eu segurando o rifle. Alvejei outro motociclista e fiquei sem balas. Percebi que nossos homens eram abatidos como moscas, e que eu e meu comandante incapacitado éramos alvos fáceis, por isso, num esforço descomunal, puxei-o para dentro do caminhão. Felizmente estava livre de inimigos, embora houvesse uma enorme caixa de madeira que deixasse pouco espaço nas laterais e quase nenhum no teto.

— Deve ser a arma secreta, soldado — Willians vociferou, tirando-me a Colt 45 da cintura. Apontou-a para fora com uma mão, enquanto usava a outra para estancar a ferida da perna esquerda. — Você tem que nos tirar daqui. Dirija o caminhão. Eu dou cobertura.

Então, fiz o que ele ordenou. Ou, pelo menos, tentei. Atravessei a carroceria e saltei para a direção, empurrando o motorista morto para fora. Uma das tábuas da caixa de madeira estava rachada, mas não pude ver o conteúdo. O que vi foram duas dúzias de motocicletas surgirem na linha de visão do retrovisor, trazendo mais nazistas armados. Desesperado, liguei o caminhão, mas o motor explodiu numa nuvem de fuligem marrom acinzentada. Era tanta fumaça que tive de retornar à caçamba, e o fiz no momento exato de ver meu comandante ser transpassado por incontáveis disparos e tombar para trás, inerte. Segundos depois, outra granada voou e se alojou do lado da caixa de madeira, oposto ao meu. Teria sido meu fim, não fosse a proteção do que havia no interior do enorme invólucro. Parecia um tanque.

Sim, era um tanque de guerra, cerca de dois metros e meio de altura, quatro de comprimento, um bloco sólido e metálico com duas pequenas aberturas de vidro na parte dianteira, canhão de disparo de dezesseis milímetros e estranhas rodas. Essas, em particular, lembravam dois gigantescos cilindros com quase cinquenta centímetros de diâmetro, dotados de saliências helicoidais perfeitas, um de cada lado do bizarro veículo. Dois enormes parafusos. Era um tanque-parafuso.

Outra saraivada de tiros ricocheteou na grande estrutura de metal e, de repente, percebi que já estava cercado pelos inimigos. Nossa incursão falhara miseravelmente e, talvez, eu fosse agora o único sobrevivente. Não sei bem de que forma, apoiei-me no enorme cilindro e saltei para dentro do tanque. Também não faço ideia de como dei a partida, já que tinha pouquíssima experiência com plataformas militares e todas as instruções disponíveis no painel estavam em alemão. Só sei que os parafusos começaram a girar e mais disparos ecoaram através da lataria. O veículo blindado avançou como um cavalo indomável para fora do caminhão destruído e, para minha surpresa, andava de lado, e não de frente ou de ré.

A velocidade era baixa, mas de maneira incrível o tanque começou a subir a encosta do vale, deixando para trás os homens e suas motocicletas. Depois eu viria a descobrir que o tanque-parafuso fora projetado especialmente para andar sobre a neve e a lama, por isso seria perfeito para invadir a fria e inóspita União Soviética. Continuei sem saber o que fazer, mas deixei que o veículo se afastasse sem controle, e ele assim o fez por quase um quilômetro. Os motoqueiros não deixaram de me perseguir, claro, mas ao fazê-lo, foram todos facilmente abatidos por uma segunda infantaria de reconhecimento que encontrei.

Primeiro pensei serem mais americanos, mas não eram. Eram russos. E o resumo do caso é que eles se apoderaram do projeto do tanque e do protótipo que eu dirigia. Fizeram-me prisioneiro, mas logo cuidaram de me deportar para o Brasil. Claro que tomaram os devidos cuidados junto ao Governo Brasileiro para que minha história não escapasse do sigilo que lhe era necessária. No fim, o veículo acabou apresentando uma série de problemas. E se ele não ajudou os alemães a vencerem a Segunda Guerra Mundial, tão pouco serviu aos soviéticos durante a Guerra Fria.

Dia desses, vasculhando a internet, lembrei da história e achei um vídeo mostrando o tanque-parafuso em funcionamento. Você poderá encontrá-lo também muito facilmente, e talvez até acredite no que acabei de narrar. É apresentado como se fosse um projeto russo, mas, de fato, sou testemunha de que ele era, na verdade, alemão. Infelizmente, isso pouco importa hoje. Foi como disse ao nobre general americano. Não havia muito para se saber sobre parafusos.

Mas o pouco que eu sabia acabou salvando minha vida.

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