Alienígena

Armando Alves Neto

Chia era o ser mais belo do universo. Eu nunca me cansava de admirar seus enormes olhos azuis, o corpo delgado e delicado, a barriga rígida e as pernas bem torneadas. Mesmo mal vestida e com as tranças desarrumadas, naqueles dias ela era um colírio para os meus olhos cansados. Estava deitada em uma cama improvisada de folhas que preparei para ela no meio de um aglomerado de arbustos. Achei que o local seria seguro de nossos perseguidores. Que bom que eu tinha razão. Nossa noite fora relativamente tranquila, a primeira em semanas, mas eu havia dormido muito pouco.

Levantei-me para esticar as costas doloridas, mas depois me pus de quatro e comecei a engatinhar para fora do abrigo. Não estava totalmente certo, mas acreditava que tínhamos entrado em alguma fazenda, por que havíamos passado por longas lavouras de soja, e isso me deixava bastante perturbado. Os fazendeiros estavam entre os empresários mais ricos e conservadores do país, seguidores ferrenhos das leis de Deus, e naqueles dias eu e Chia evitávamos esse tipo de pessoas ao máximo. Pensei ter ouvido cães se aproximando de nós ao cair da noite anterior, mas os ladrares se perderam depois que cruzamos o riacho gelado. A princípio, achei que os perseguidores haviam enfim encontrado nosso rastro, mas minha mulher me convencera de que eram apenas animais que viviam na região. Se eu achava que estava ficando meio paranoico nos últimos dias, ela provavelmente tinha certeza.

A luz do sol da manhã revelou-nos um vale raso e acidentado, coberto de pedras retalhadas, e a embocadura de um regato que acabava por culminar em um lago natural ou poço artificial muitos quilômetros a frente. Precisávamos de água, mais do que de comida, mas eu não tinha a intenção de seguir por ali. Meu alvo estava mais ao sul, em um caminho que ia paralelo à sequência linear de enormes torres de transmissão de energia interligadas por cabos longos e curvados, até o ponto em que a vista alcançava. Na verdade, não era para onde eu desejava ir, mas Chia me convenceu, ou assim ela pensava, de que era o melhor a fazer. Estava louca a ponto de achar que valia a pena ficar e lutar por uma causa perdida, e eu, louco a ponto de querer deixar o planeta e nunca mais retornar.

Quando voltei aos arbustos, ela ressoava pesadamente. Mas não era bom permanecer ali durante o dia, por isso, precisei acordá-la.

— O foi? — perguntou-me assustada, usando seu português falho e carregado de sotaque que ninguém entendia e admirava melhor que eu.

Afaguei-lhe o pescoço ossudo, respondendo que estava tudo bem. — Precisamos ir andando. Acho que estamos perto.

Ela se levantou em silêncio e se pos a massagear os pés descalços, mas só depois de nos arrastarmos para fora novamente, pareceu se dar conta de que não nos encontrávamos mais em casa.

— Lugar é esse? — ela sibilou.

— Bem, diria que estamos ao sul da represa. Supondo que andamos uns quinze quilômetros ontem à noite, então devemos estar próximos da casa de campo do seu amigo. Mais uns dez quilômetros.

— Como você pode ter tanta certeza? — ela retrucou, sempre crítica. Esse era o grande mal de quase todos os keplerianos. Tinha dezenas de sentenças para repreender, mas poucas para elogiar. Muitas palavras para falar de qualidade, mas um mísero símbolo, ァ, para falar de saudade.

— Lembro daquele pico pontudo lá longe, da vez que viemos visitá-los. Sei que era ele, mesmo visto pelo outro lado — respondi com firmeza, tentando passar mais certeza do que realmente tinha.

Seguimos então pelo descampado a passos rápidos, mas depois tivemos que diminuir o ritmo quando começamos a subir uma encosta tomada de pinheiros e cipós. O bosque continuava por milhares de metros a frente e a altura das árvores não deixava ter qualquer referência externa que pudesse nos guiar. Por duas vezes, senti-me inclinado a dizer a Chia que ainda não era tarde demais para desistirmos daquela loucura e fugir de vez da Terra, mas algo me dizia que minhas palavras se perderiam como os sons dos cães da noite anterior.

Gastamos toda a manhã para enfim encontrar a saída da mata, mas para meu desespero, a trilha descoberta nos levava direto a uma vastidão de plantações de milho e soja. Vimos enormes jatos de irrigação que expeliam água a longas distâncias e grandes tratores arando a pequena parte desnuda do solo. Difícil dizer ao longe se haviam trabalhadores guiando os veículos ou se as máquinas eram totalmente automáticas. Nem mesmo Chia, com sua visão muito mais aguçada do que a minha, podia ver através das nuvens de pólen e produtos químicos dispersados com o movimento da terra.

Ver aqueles tratores à distância me fez recordar de um dos dois momentos mais inesquecíveis da minha vida. Estava eu na inocente idade de oito anos, um mero quinto do que tenho hoje e três a menos do que você, quando meus pais interromperam meu programa infantil favorito para colocar no canal de notícias. O mundo inteiro ficou apreensivo naquele dia, assim que as primeiras naves pousaram em campos clandestinos de plantação de maconha na divisa do México com os Estados Unidos. Lembro-me do pânico que acometeu alguns de nossos vizinhos aqui no Brasil, mas outros aproveitaram para fazer piada com o fato, dizendo que os ETs tinham vindo buscar erva para uma viagem intergaláctica.

plantacao-de-soja

Nos dias que se seguiram, o mundo descobriu não apenas que não estávamos sozinhos no universo, mas também que havia vida logo ali, há poucos 700 anos-luz de distância da Terra, num planeta que os cientistas já tinham denominado como Kepler 78b, mas que os fanáticos por Guerra nas Estrelas, não sei bem o motivo, se encarregaram de apelidar de Tatooine. O nome da terra-natal de Luke Skywalker acabou pegando, apesar de os keplerianos insistirem para que usássemos o termo Dirrasba, cuja grafia, eu sabia, era apenas uma grosseira aproximação da pronúncia original que nossas limitadas gargantas humanas eram incapazes de repetir. Estrela da Morte talvez fosse o nome mais adequado na opinião de alguns líderes religiosos radicais, que logo se sentiram ameaçados com o fato de seu deus ter tido a audácia de criar vida fora da Terra.

Em minha pobre inocência, não tive noção imediata do quanto os acontecimentos daquele dia 18 de maio mudariam completamente a história da humanidade e a minha própria. Só muitos anos depois, quando encontrei Chia pela primeira vez, foi que me dei conta disso. Esse dia, aliás, proporcionou o segundo momento mais inesquecível de minha infeliz existência, mas agora eu não tinha tempo de pensar no passado.

Levamos poucos segundos para decidir que deveríamos arriscar a cruzar a lavoura, já que voltar não era uma opção para minha adorável e teimosa esposa, e assim nos arrastamos por debaixo da cerca rústica de arame farpado que bloqueava a passagem. Corremos por entre as mudas de milho mais próximas e, ao menos nessa tarefa, eu era superior a Chia. Seus membros inferiores eram bastante compridos e ela era quase tão alta quanto eu, mas a forma como suas pernas eram arqueadas para trás, logo a baixo dos joelhos, não faziam dela a melhor das velocistas. Era algo estranho de se ver a princípio, mas para mim, essa era a parte mais bela de seu corpo humanoide.

Tropeçamos depois, morro abaixo, em uma encosta esverdeada que protegia a grande plantação do vento, e caímos em um vale estreito serpenteado por um regato, onde enfim bebemos um gole de água gelada. Na sequência encontramos a estrada asfaltada, perigosa para nossas intenções furtivas, mas excelente para nossas pernas cansadas. E foi nela que descobrimos outros sinais de que estávamos na direção correta. A esquina dessa rua com uma trilha de terra pouco convidativa abrigava um frondoso pé de acerola, e aquela era a entrada para o sítio onde os amigos de Chia viviam, quase escondidos.

Aliviado, puxei minha esposa pela mão e começamos a vencer os últimos metros da estrada de chão batido, que ziguezagueava no meio de uma mata densa e culminava na clareira ao sopé de um morro baixo de pedras. Lá estava a casa branca de dois pavimentos, porém simples, cercada de arbustos na frente e por áreas de pastagem ao fundo, com alguns bovinos circulando por lá. Mas o alívio durou pouco, terminando assim que um tiro ricocheteou na árvore ao meu lado.

— Quem vem lá? — uma voz de mulher cortou o ar, atenuando o som ensurdecedor do disparo.

Parei imediatamente, mas Chia avançou em maior velocidade. Gritei para que não se movesse, mas meu aviso só serviu para que ela começasse a abanar os braços loucamente e a gritar palavras curtas em kepleriano. Outro tiro passou entre nós, e pude ver o reluzir do cano através de um pequeno buraco na janela do primeiro andar. Então uma figura alta e magra, vestida como alguém que acabara de deixar uma lavoura de cana em chamas, saiu pela porta da frente e correu em direção a Chia, gritando palavras ininteligíveis. Logo, percebi que aquele era Kulpter, o amigo kepleriano de minha esposa. Os dois se abraçaram, gesto aprendido depois de anos na Terra, mas também encostaram as testas num sinal fraternal. Kulpter era um macho da espécie, bem mais velho do que Chia pelo que indicava sua pele desgastada e o formato triangular da cabeça.

Logo em seguida, surgiu na porta uma mulher loira de cabelos curtos, pouco mais jovem do que eu, portando a espingarda calibre 12 e uma caixa de balas. Entendi por fim que estávamos seguros agora, mas o tempo veio para provar o quanto eu estava enganado.

Passamos uma noite calma, apesar de termos ido dormir tarde. Kulpter e Karen formavam um casal de renegados, como Chia e eu, e encontravam-se a par das novas leis que começaram a valer naquela semana. Estavam em alerta máximo nos últimos dias, por que, embora isolados dos grandes centros, tinham vizinhos que sabiam a respeito da vida conjugal “pervertida” que levavam, e eles seriam os primeiros a invadirem suas terras depois que os dois fossem levados sob custódia.

Kulpter e Chia eram amigos há muito tempo, não sei bem quanto, e haviam chegado ao nosso planeta no mesmo comboio, por isso estavam sempre em contato. Gostava de desconfiar que eles tinham tido um caso ainda em Kepler 78b, apesar de ele ser muito mais velho do que ela. Isso, por alguma estranha razão, fazia me sentir mais humano em alguns aspectos, e mais especial em outros. Os dois ficaram conversando até tarde em sua própria língua-mãe, que soava sempre enfadonha a meus ouvidos, mas eu estava esgotado e mal pude esperar Chia para me deitar na cama que nossos anfitriões prepararam para nós. Era madrugada quando minha amante finalmente chegou para partilhar o leito e, apesar de cansados, ela convenceu-me a fazer amor. Até hoje me lembro como aquela noite foi maravilhosa.

Acordei no dia seguinte com o sol brilhando no rosto e um gosto meio amargo na boca. Pensava ter ouvido passos do lado de fora da casa, e até me aquietei para escutar mais atentamente, mas conclui que haviam apenas pássaros na mata em volta. A cama, ou melhor, o colchão de casal esticado no assoalho de madeira estava vazio. As roupas de Chia tinham sumido, por isso me levantei, alertado. Uma olhada na sala me revelou Karen, sentada diante da tevê, espingarda estendida no colo, tomando uma cerveja em lata.

— Cadê minha esposa? — perguntei, sem disfarçar o susto inicial.

— Junto com o meu marido — ela resmungou, sem tirar os olhos do aparelho. Depois completou. — Saíram para conversar sozinhos. Como se pudéssemos entender aquela maldita língua que eles falam…

A mulher era muito bonita, mas foi difícil não reparar que ela não estava nem um pouco a vontade com a presença de convidados inesperados. Naquele momento, senti a tentação de me gabar por ser capaz de pronunciar algumas poucas sentenças comuns em kepleriano, mas deixei a arrogância de lado para me concentrar também na tevê.

Karen assistia ao pronunciamento inflamado de um homem claro e calvo, vestindo terno preto. Logo o identifiquei como sendo o Ministro da Moralidade e dos Bons Costumes, que junto com o Ministro da Justiça, encabeçava a lista de expoentes do Partido da Fé Cristã, atualmente o segundo em influência no Congresso Nacional. O sujeito agora se vangloriava da aprovação do Projeto de Lei, proposto por um de seus deputados-marionete, que proibia e condenava a união de seres de diferentes planetas. A alegação principal, e devo confessar que isso é a mais pura verdade, era a de que não podia haver qualquer possibilidade de procriação entre terráqueos e keplerianos. De fato, nossos organismos tinham muitas diferenças e alguns autointitulados cientistas, coincidentemente partidários do Ministro, alegavam que a fecundação era impossível nesses casos. Cá entre nós, tenho minhas dúvidas de que crianças híbridas trariam conforto a nossos líderes de visão curta e pensamento retrógrado, mas em suas bocas, o fato do relacionamento entre seres, terráqueos ou não, se darem para fins que não reprodutivos ganhava a dimensão do pior dos crimes.

O projeto também acabou sendo usado para revogar a Lei de Criminalização da Xenofobia, tão necessária para garantir direitos sociais à Chia, Kulpter e a milhões de outros keplerianos que se refugiaram na Terra após as frequentes guerras globais que tomaram Kepler 78b.

É claro que havia justificativas para toda a perseguição e discriminação contra os extraterrestres, mas as principais estavam na bíblia cristã. A mais usada era Levíticus 18:23, Não terás relações sexuais com um animal, contaminando-se com eleé depravação“. Era necessário fazer um esforço para aceitar que os keplerianos, se não eram “humanos aos olhos de Deus”, estavam na mesma classe inferior dos animais, mas a crescente massa de fiéis que tomava a quase totalidade da população brasileira, e quem sabe mundial, parecia não se importar com esse pequeno detalhe. Não sei o que era pior para Chia. Ser comparada a meros bichos terrestres ou ser proibida de dividir a cama comigo, mas agora as perseguições aos pecadores estavam oficialmente decretadas e a temporada de caça aos casais interplanetários tinha sido liberada.

Nos últimos dias, frases como essa união depravada representa o fim da famíliae querem ensinar nossos filhos a fornicar com abominações do infernoeram cada vez mais comuns. O próprio Ministro as usava agora na tevê, com todo o fervor de sua boa alma cristã.

— Por que nos odeiam tanto? — Karen bebericou a cerveja, mas como continuava sem me encarar, demorei para responder.

— Eles têm medo.

— Eu também — ela enfim se virou para mim, girando a cadeira, mãos sobre a arma no colo.

Eu experimentava conforto todas as vezes que interagia com alguém que, como eu, sentia-se atraído pelas belas criaturas de outro planeta, e ia me aproximar daquela rude mulher para estreitarmos a conversa. Mas não houve tempo para isso.

De repente, algo entrou voando pela janela, um objeto cilíndrico, do tamanho de uma lata de óleo, acompanhado de uma intensa fumaça cinza. Karen levantou-se de pronto e tentou chutar a coisa para baixo do sofá, mas só conseguiu afastá-la de nós temporariamente. Depois ela gritou para que eu me abaixasse e correu até a janela, disparando a espingarda a ermo. Foi logo atingida por um balaço abaixo das costelas direitas e caiu, já sem a arma.

Olhei para ela, paralisado de medo, e pouco pude fazer a não ser me arrastar e tentar estancar seu ferimento com uma pequena almofada. Eu respirava intensamente aquela fumaça seca, e ela logo fez seu efeito. Forçou-me a cerrar as pálpebras, mas tive tempo de ver homens do exército derrubando a porta e vozes dizendo que haviam capturado os pervertidos de Satã…

— Peraí… Então, foi assim que você e a mamãe se conheceram? — Karina me interrompe subitamente.

Fico alguns segundos mirando em seus profundos olhos azuis antes de confirmar. De todas as características visíveis que a faziam filha de Karen, os olhos eram sem dúvida a mais evidente. Olhos que agora mostravam toda a suspeita e descrença que alguém com apenas onze anos podia apresentar.

— Foi — respondo sorrindo.

— Então você namorou mesmo com uma alienígena?

Antes que eu pudesse confirmar a história, ou mesmo me arrepender de ter contado algumas partes dela, Karen aparece na porta da sala com uma toalha enrolada no corpo e outra nos cabelos. Fico imóvel, apenas encarando seu olhar reprovador. Olhar que, eu sabia, queria dizer que aquilo definitivamente não era história para crianças.

— Venha comigo, princesa. Vem ajudar a mamãe a se vestir.

— Mas papai estava me contando uma história…

— Uma história boba, querida. Já disse para não acreditar em tudo o que ele diz. Vem com a mamãe!

Contrariada, Karina se levanta e sai andando, cabisbaixa.

— Esqueceu o beijinho do papai — eu reclamo, e minha pequena rainha volta para me acariciar a bochecha e afagar-me os cabelos.

— Aproveite a noite, querido — Karen me dá um sorriso frio e deixa a sala, levando a menina consigo.

Tomo então um copo de uísque com gelo para aliviar a ansiedade, antes de pegar o celular. Ontem foi meu dia de ficar em casa com Karina, mas hoje é a vez de Karen. Penso, empolgado, que terei toda a noite livre. Releio a mensagem pela última vez, só para ter certeza de que estava tudo certo. “Espero você apareça essa noite. Mesmo lugar, mesmo horário. ァ “…

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