Peixe

Armando Alves Neto

A última coisa que me restava era aquele peixe. Estava dentro do aquário de vidro, jogado em um canto, meio morto de fome. Há dias eu não sentia fome, mas lembrava de como isso era ruim. O pobre animal estava lá, movimentando-se de maneira lenta, letárgica, meio tonto, circulando seu espaço fechado sem objetivo. Assim como eu!

Aí meu Deus, como era triste o dia seguinte. Sobretudo pela manhã. Aquela ressaca que te queima por dentro, que retarda seus músculos e sacode o cérebro até te impedir de abrir os olhos. Mas, como poucos, eu tinha a plena consciência de que aquela reação física ao uso excessivo dos produtos não era a pior parte. O pior de tudo era a ressaca moral, o desejo de morrer na manhã seguinte, a vergonha de encarar as pessoas com os olhos vermelhos e o rosto esticado, que nem o peixe.

Sempre admiti que largar a cocaína ou o crack não era o que eu queria. Usar tóxicos era ótimo. Talvez, por isso, minha família e meus amigos tenham me deixado de lado. O problema era aquela sensação de breve sobriedade do dia seguinte, quando conseguia me lembrar de quase tudo de errado que havia feito na noite anterior. E sempre que abria os olhos, estava jogado no sofá, e aquele peixe dourado me encarava. Maldito! Não sei como ele chegou ali. Um belo dia apareceu no chão da sala, meio escondido atrás da cortina. E no começo eu tinha um monte de outras coisas.

Além do sofá, tinha uma escrivaninha, televisão, geladeira, fogão, pertences de uma pessoa normal. Eu costumava ser uma pessoa normal até dois meses atrás. Ou seriam dois anos. Não me lembro! Não sei nem o que aconteceu com minhas coisas. Algumas troquei por dinheiro, que usei para comprar crack. Nunca paguei nem pela cocaína e nem pelo álcool, graças ao Fred, meu grande amigo de infância. Às vezes, acho que foi ele quem deixou o peixinho aqui, para eu cuidar. Ele sabia que ia morrer, por isso guardou o bicho na minha sala. O peixe foi a única coisa que não perdi para as drogas. O que eu mesmo não vendi acabou levado pelos homens que faziam a guarda do tal Neném, o bandido que gerenciava o tráfico de quase todo o estado. Ao menos, era isso que os malucos diziam. Restava-me apenas aquele peixe. O peixe e o pouco de dignidade que ainda representava sua presença no meu apartamento.

O chão da sala era duro e frio, mas que diferença fazia isso para alguém que já tinha passado a noite na rua algumas vezes. Quando encontrava um amontoado de lixo ou um monte de areia macia na calçada, era um dia de sorte. A última coisa que me restava era aquele peixe. Não sei como ele ainda não tinha morrido de fome. Talvez ficasse chapado com a fumaça da maconha. Seus olhos eram vermelhos demais para um peixe normal. Tenho que vendê-lo. Não posso mais mantê-lo aqui. Qualquer hora me jogo pela janela e quem vai cuidar dele? Se fosse um pássaro, já o teria soltado. Mas onde posso soltar um peixe? Talvez no lago do parque. A ideia já tinha me ocorrido várias vezes, mas a coragem só vinha pela manhã, durante a ressaca, e logo passava. Amanhã faço isso. Amanhã…

— Faça isso agora — escutei uma voz fina e esganiçada sussurrar no meu ouvido esquerdo. — Me liberte daqui, quero sair.

peixe-no-aquario

Primeiro levantei a cabeça, assustado, achando que alguém tinha entrado no meu apartamento. Mas qualquer um que entrasse teria acendido as luzes ou aberto alguma janela, e não foi esse o caso. Olhei então para o peixe, que de novo me encarava. Estávamos sozinhos, nós dois.

— Quero sair daqui — ouvi novamente a voz. Vi o bicho mexendo os lábios e, por um segundo, esfreguei os olhos e balancei a cabeça. Não estava chapado, disso eu tinha certeza, mas também não podia estar totalmente sóbrio. O peixe falava comigo. Me aproximei, incrédulo, mãos apertando o rosto barbado. Devo ter pirado de vez.

— Quero sair — o peixe repetiu, e agora seus lábios realmente seguiram o ritmo das palavras.

— Quer que eu te leve até o lago? — perguntei a ele, consciente do fato que falava com um ser irracional debaixo da água.

— Não. Quero voar. Ser um pássaro. Me transformar e sair dessa prisão. Me jogue pela janela, agora.

Custei a acreditar naquilo. — Não pode voar — repliquei. É só um peixe, e peixes não voam.

— Você não tem fé em mim? — ele me perguntou, agora soltando pequenas bolhas que subiam até a superfície. Não respondi, e o animal pareceu ter notado a dúvida em minha mente, por que continuou a dizer — Precisa ter fé em mim, meu filho. Sou a única coisa que você tem agora. A única coisa que restou nesse apartamento. E se digo que posso voar, deve acreditar em mim cegamente.

— Mas e o Fred? Ele também acreditou em você? — não sei por que perguntei aquilo, mas pareceu que a resposta faria sentido naquele instante.

— Ele escolheu não acreditar, por isso, não me soltou. Mas você pode, Danilo. É mais forte do que ele. Agora vamos. Me leve até a janela.

Sem saber exatamente o porque, peguei o aquário inteiro e me aproximei da janela. Quando estava chapado, não me atrevia a fazer isso, por que a paisagem era bastante convidativa. Mas são, o que eu via era apenas centenas de casas e prédios, ruas cheias de carros e os oito andares de distância até o chão.

— Agora me atire — disse o peixe e, em seguida, pareceu respirar fundo.

— Não posso fazer isso — retruquei. — Você é a única coisa que me resta. Depois disso, não terei mais nada.

— É por isso que tem de fazê-lo. Quando estiver voando, trarei de volta tudo o que você perdeu. Vamos, não pense. Jogue.

Então eu joguei! O peixe subiu junto com a água e o aquário, e depois caiu. Caiu, caiu e caiu…


* * *


— E então, Rafael? — perguntou o sargento. — Descobriu quem era o cara?

— Bem, mais ou menos — respondeu o detetive. — Os vizinhos o identificaram como Frederico Gonçalves, um desempregado e usuário de drogas. Mas algumas pessoas que passavam pela calçada disseram que o nome dele era Danilo, e que ele frequentava uma igreja evangélica no final da rua.

— Hummm… Identidades conflitantes, hein? Achou algo de suspeito no apartamento?

— Nada, chefe. O cara não tinha nenhum móvel. Também não encontramos drogas nem armas, mas a perícia ainda fará uma vistoria minuciosa lá. Nós só encontramos uma bíblia.

— Uma bíblia? Então o cara era mesmo religioso.

— Bem, as pessoas disseram que ele começou a frequentar a igreja há pouco tempo. Mas a bíblia estava perto da janela. Aberta na página daquela passagem da moeda na boca do peixe.

— Não sou um perito em religião, Rafael!

— Sabe? Aquela passagem em que Jesus manda um homem pescar um peixe para achar uma moeda dentro dele e, assim, pagar um imposto.

— Sei… Mais uma daquelas fábulas que só tem na bíblia — o sargento debochou. — Bom, e quanto ao corpo?

— Já foi retirado da calçada. Os peritos também já identificaram os pedaços de vidro espalhados lá. Faziam parte de um crucifixo de mais ou menos cinquenta centímetros de comprimento. A vítima deve ter pulado com ele.

— Pulou, ou foi jogada. Ainda temos que ver isso. Algo mais?

— Sim. Havia também um peixe.

— Um peixe? Que tipo de peixe?

— Um daqueles de ouro, presos a uma corrente de pendurar no pescoço. No meio estava escrito… hã…

— Escrito o quê? Fale de uma vez, homem!

— JESUS…

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