Alienígena

Vilar da Câmara Neto

Há certos aborrecimentos do nosso cotidiano para os quais a gente nunca consegue se preparar. Abrir uma conta no banco, por exemplo. De véspera você confere a lista de documentos, por precaução leva duas cópias de cada (pediram uma), decide incluir a carteira de habilitação caso considerem vencida a sua identidade (que não tem data de validade), tira cópia de três comprovantes de residência porque cada um tem um erro diferente de grafia no endereço. E reza para que o gerente da vez não peça cópias autenticadas. Enfim, é entrando no banco com aquela papelada (diligentemente arrumada em uma pasta recém comprada só para esse fim) que você tem aquela sensação de que o verdadeiro embate ainda está por começar.

Entrei no hall do banco e me dirigi para a portinhola para depositar celular e chaves. Distraído, tomei um susto com um segurança de dentro do banco, que batia com o nó dos dedos no vidro para me indicar em seguida um “não” veemente com o dedo em riste. Não entendi: não era justamente aquele o ritual automático para passar pelo detector de metais disfarçado de porta giratória? Ou as coisas andaram mudando e eu deveria despachar meus metais pela porta giratória e passar eu mesmo pela portinhola? O segurança me indicou algo atrás de mim. Virei-me, era um daqueles quiosques “Retire Aqui a sua Senha”. Aparentemente agora é necessário mais um ritual para se ganhar o espaço interno do banco: retirar ali a minha senha. Ou, melhor dizendo, me dirigir ao funcionário sentado numa mesa ao lado do quiosque, já que ele claramente detinha o monopólio sobre a operação do aparelho.

Entrei na fila. Verdade, fila para falar com o funcionário para tirar uma senha para entrar no banco, onde só Deus sabe quantas outras filas nos aguardariam. A senhora da minha frente reclamou que estava há alguns minutos esperando. Foi calmamente instada com um gesto do funcionário a ter mais paciência, já que este discutia alguns documentos com um colega. Aguardei eu também, na minha vez expliquei ao sujeito a que vinha: precisava abrir aqui uma conta. Trouxe os documentos? Sim (mas, pensei, não me peça pela autenticação). Recebi um formulário para preencher meus dados e subitamente me percebi descartado da fila: o próximo já estava em atendimento.

Percebi que teria que trabalhar mais para ganhar o direito de entrar no banco, já que o formulário para abertura de conta não acompanhava o tal papelzinho com a senha. Fiquei com inveja da senhora da fila, aparentemente bem mais considerada do que eu, já que foi julgada no direito de ganhar uma senha de entrada. Preencher o formulário, pois, vamos lá. Não havia cadeiras, apenas aquelas mesas de acrílico, quase uma concessão irônica de pelo menos termos onde escrever que não simplesmente apoiado nas paredes. Talvez tivesse que agradecer por ser ainda bom das pernas e aguentar dez minutos de escrita em pé. Gente de uma geração mais idosa teria sido desanimada na primeira prova de resistência.

Preenchido o formulário, nova rodada com o funcionário. Trouxe os documentos? Sim (mas, pensei de novo, não me peça pela autenticação). Entreguei os papeis, que foram alinhados, desinteressadamente conferidos, realinhados e grampeados.

— O senhor retorne em quarenta e oito horas que sua conta deve estar aberta.

Espere aí, nem pra abrir uma conta vou conseguir entrar no banco? Já havia certos nichos que ao ser comum não é dado o privilégio de saborear — a escada em curva para o misterioso segundo andar, com um leão-de-chácara plantado na primeira volta, e as saletas especiais no fundo do salão isoladas da plebe por divisórias em vidro jateado, para onde o gerente conduz o seleto cliente com sorrisos, já solicitando na passagem um cafezinho pra secretária. Aparentemente eu tinha sido menoscabado a uma categoria ainda mais baixa, um alienígena talvez, a quem se nega até mesmo o salão principal com ar-condicionado subdimensionado.

De qualquer forma, não era apenas um capricho geográfico particular: pelas necessidades da circunstância precisava sair dali já com o número da conta corrente, achei que precisava entrar e conferenciar com mais alguém para esse fim. Falei isso ao funcionário, que me olhou estupefato: retomou meus documentos e desta vez examinou detidamente — talvez se fosse eu alguém importante? Decidiu que não. Pelo menos me concedeu a cortesia de uma explicação detalhada:

— O senhor entende, é que essa parte de abertura de contas é terceirizada, a empresa que faz isso só passa no fim do dia pra pegar os documentos, aqui a gente não pode fazer nada. Amanhã de tarde já devem abrir a sua conta, mas aí já passou o horário de público, só na quinta de manhã mesmo.

Estupefato agora fico eu. Terceirizaram a abertura de contas em um banco? Não é possível, teria que ser uma pegadinha, uma câmera escondida? Bom, havia várias câmeras ali, a maioria nem tão escondida assim. De qualquer forma, achei que a matemática não batia. Se o banco já é a terceirização da gerência do nosso dinheiro, me ocorreu que a tal empresa que realiza a abertura das contas foi quarteirizada, não é isso?

Ordinais à parte, insisti com o funcionário que eu precisava pelo menos de um protocolo para formalizar a entrega dos documentos. Evidentemente estava me revelando um chato sem precedentes, um desafio à calma inabalável do sujeito. Não havia uma linha de corte nos formulários para um retângulo que poderia se prestar a ser um protocolo, portanto não há protocolo, o senhor entende? Não entendo, sinto muito, como é que posso voltar daqui a dois dias e provar que estive aqui hoje? Acho que ele quase respondeu que bastava me identificar ao voltar (provavelmente assim a humanidade caminhava por aquelas paragens desde a extinção do sacramento protocolar). Ao invés disso, com um salto da cadeira se dispôs a tirar uma cópia do formulário que eu tinha acabado de preencher, o que o senhor acha? Achei razoável e ele se levantou para providenciar pessoalmente a fotocopiadora, arrancando um suspiro de desânimo da fila.

Retornou com a cópia, arrematou com uma gigantesca rubrica floreada e me entregou. Pedi que acrescentasse um número de telefone a quem pudesse recorrer para evitar uma viagem à toa (vai que as quarenta e oito horas prometidas durem três ou quatro dias — afinal, ali ninguém podia fazer nada, o senhor entende).

— O senhor vê, nem tenho ramal aqui comigo. — E, sorridente, talvez por isso mesmo tenha se prontificado a dar nome e telefone de algum colega de trabalho, quem sabe um desafeto. Anotou as informações às costas de uma senha já invalidada. Recado muito bem dado: não seria hoje que seria admitido na área interna reservada ao baixo clero. Quem sabe seja promovido na quinta-feira.

É com esse banco que acabei de me casar pelos próximos anos. Deus queira que não venha a ter nenhum problema com o talonário de cheques: talvez o setor de reclamações tenha sido quarteirizado e minhas queixas desapareçam, sem registro de protocolos. Suspirei desanimado e saí à procura de um quiosque para pagar o estacionamento do shopping.

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